Negócios de impacto na cadeia de valor das empresas

A inclusão de negócios de impacto na cadeia de valor das empresas pode aumentar os ganhos de famílias de baixa renda, gerar a oferta de bens e serviços que melhoram a vida das pessoas e ajudar o desenvolvimento socioeconômico regional, como demonstram cases apresentados no Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto 2016 – Investir para Transformar, realizado em agosto, em sessão moderada por Rafael Gioielli, do Instituto Votorantim, com a participação de Felipe Bannitz, do Instituto de Socioeconomia Solidária (ISES); Luiz Gustavo Ortega, do Braskem Labs; e Patricia Gomes, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

Os cases apresentados no Fórum ajudam a reforçar a Recomendação # 5 da Força Tarefa de Finanças Sociais, para que “as empresas criem estratégias e políticas internas para viabilizar, até 2020, que 5% de suas compras corporativas sejam feitas de Negócios de Impacto, e reportem periodicamente seu avanço em direção a meta”.

Veja a seguir os cases apresentados durante o Fórum

Origens Brasil®

O Selo Origens Brasil é fruto de uma parceria entre o Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) e o ISA (Instituto Socioambiental) com o objetivo de dar mais transparência a produtos da floresta, assegurar sua origem e ajudar o consumidor a identificar empresas que valorizam e respeitam, em suas práticas, os Territórios de Diversidade Socioambiental, como é o caso do Xingu, com 26 milhões de hectares de áreas protegidas, no Mato Grosso e Pará, que atravessa os biomas Amazônia e Cerrado, onde vivem populações extrativistas e povos indígenas que falam 27 idiomas . O selo nasceu com um sistema de monitoramento e avaliação de impacto, que monitora indicadores relevantes para medir a real contribuição do Origens Brasil® para a manutenção da diversidade socioambiental dos territórios.

Segundo Patrícia Gomes, os povos indígenas vivem em constante ameaça – desmatamento, pecuária extensiva e garimpo, por exemplo, que geram produtos com valor agregado muito maior do que a produção tradicional desenvolvida por essas comunidades. “É uma produção invisível, apesar de fazer parte do nosso dia a dia. Não enxergamos o valor desses produtos e como os produtores contribuem para a preservação do ecossistema”, diz ela.

O desafio era encontrar soluções para valorizar a produção manejada por esses povos inseridos em mercados diferenciados, a fim de que eles pudessem permanecer em seus territórios de forma digna e exercessem seu papel de conservação, acrescenta Patrícia Gomes.

O desenvolvimento do Origens Brasil® foi feito com a participação de diferentes atores, da criação de uma plataforma para conectar empresas e consumidores interessados nessa relação diferenciada e na história desses povos produtores. O selo e QR Code preconizam o engajamento de produtores e empresas, a construção de indicadores que permitam aprimorar a iniciativa e comunicar às empresas o impacto que uma relação comercial feita nas origens pode gerar nas comunidades/populações do Xingu.

Entre as empresas envolvidas estão Wickbold(castanha do Pará), Mercur (borracha natural), Firmenich (oléo de copaíba) e Grupo Pão de Açucar (Mel).

“Vejo uma mudança enorme nos consumidores, cada vez mais conectados, exigentes e com papel importante como agentes de transformação. Isso também faz com que as empresas se adaptem e incluam uma pauta socioambiental”, afirma Patrícia Gomes. Ela observa que cada empresa tem interesses diferentes: gestão de risco, transparência na cadeia, fazer com que a cadeia de suprimento promova o desempenho socioambiental. Mas há também muitos desafios, entre eles ampliar o projeto, facilitar o diálogo de mundos tão diferentes, entre grandes empresas e comunidades tradicionais que muitas vezes não falam português. “Não é fácil monitorar o impacto socioambiental. Mesmo assim, estamos lançando nossos indicadores e dispostos a fazer ajustes à medida que identificarmos a necessidade para tanto”, revela.

Confira mais detalhes em www.origensbrasil.org.br

Braskem Labs

Outra iniciativa apresentada na sessão do Fórum foi o programa Braskem Labs, cujo objetivo é estimular ideias novas e apoiar empreendedores inovadores que ofereçam produtos ou serviços sustentáveis, com impacto positivo sobre a vida das pessoas, por meio da química e do plástico que compõem a cadeia produtiva da empresa.

Iniciado no ano passado com 150 inscritos e monitorias em 19 empresas, os projetos inscritos foram avaliados por uma equipe da Braskem e da Endeavor que considera a inovação proposta, potencial de mercado, perfil empreendedor do proponente e sua equipe, impacto positivo gerado na sociedade, modelo de negócio e valor para a Braskem. Os empreendedores passam por um processo de capacitação durante quatro meses, personalizado de acordo com os desafios de cada empreendedor, que inclui 12 mentorias coletivas e individuais feitas voluntariamente por diretores da Braskem e pela equipe da Endeavor, acesso a conteúdos exclusivos e eventos especiais de capacitação. No final do processo, os empreendedores selecionados apresentam seus projetos para executivos da Braskem, mentores da Endeavor, investidores e outros players do mercado.

De acordo com Luiz Gustavo Ortega “a cultura interna da Braskem oferece um forte estímulo para que todos sejam empresários no seu contexto e valoriza a contribuição de parceiros externos como a Endeavor e a Vox Capital”. Ele conta que quando o programa abriu inscrições surgiram 350 ideias. “É uma forma de oxigenar internamente nossos processos de desenvolvimento e inovação, o que não conseguimos fazer no dia a dia. Isso traz um retorno indireto importante. O consumidor não quer se relacionar apenas com o produto, mas com a empresa que está por trás, com o propósito”, afirma.

Mais informações em www.braskemlabs.com

Instituto de Socioeconomia Solidária (ISES)

Felipe Bannitz, do ISES, conta que o Instituto atua na no fortalecimento da agricultura familiar e das incubadoras de economia solidária, na perspectiva de construir círculos virtuosos de geração de renda e de estímulo a promoção do consumo local com o suporte de um sistema de microfinanças comunitárias.

O problema é como fazer os produtores da agricultura famíliar saírem da pobreza e gerarem impacto em seu entorno. Sem um braço comercial, agência de marketing e comércio justo, eles teriam muitas dificuldades para manter sustentabilidade financeira. Então o ISES começou a trabalhar na estruturação de um banco de microcrédito, de entrepostos comerciais e agroindústrias da agricultura familiar, com geração de postos de trabalho, valorização da produção agrícola do território e aquecimento da economia local. Atuou também na estruturação de cooperativas de coleta seletiva de resíduos, igualmente com geração de empregos, melhoria da limpeza urbana e saúde pública e redução do gasto público com gestão de resíduos.

A estratégia de inovação social do ISES inclui o fortalecimento de políticas públicas, prestação de serviços para empresas com responsabilidade social, incubação de negócios inclusivos e desenvolvimento de tecnologias sociais, e formulação e qualificação de políticas públicas de combate à pobreza para difusão das tecnologias sociais. Há uma agência que cuida de design, estratégias de marketing e acesso às cadeias de valor (varejistas, indústrias, supermercados) e aos investidores sociais.

Naturalmente, há desafios que devem ser enfrentados: engajamento das áreas de suprimentos, adequação das regras de suprimentos à realidade dos negócios inclusivos e o estabelecimento de cotas direcionadas à agricultura familiar pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Conheça mais em www.ises.org.br